terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Entrevista com Francisco Aparecido Pinto de Godoi - Autor de: Homens do caixão

Francisco Aparecido 
Francisco Aparecido Pinto de Godoi nasceu em 29 de abril de 1985. Desde criança mostrou-se interessado por leitura e por escrever pequenas histórias, mas só aos dezoito anos começou a escrever profissionalmente, em resposta a uma mal produzida novela das sete: escrevia alguns capítulos com determinada resposta, mas nunca conseguiu êxito de produção. Seguindo o interesse em escrever, elaborou Homens do Caixão entre novembro e dezembro de 2003 como peça de teatro, mas, por se tratar de um texto que exigia muito dos atores, nunca foi encenado. Resolveu adaptar o texto para a rapsódia ou romance em 2013, e assim espera ser menos hermético.

Homens do Caixão
Homens do caixão conta a saga de Teodorico, o corrupto prefeito de Socorro, no interior paulista, um homem muito supersticioso. Ele acredita que o município é assombrado por oito homens fantasmas que carregam um caixão no cruzamento das estradas das fazendas de café, à noite. Essa crença leva o município a uma situação de calamidade, a ponto de o governo militar enviar à cidade um oficial, o coronel José Luiz, que é levado a crer na superstição do prefeito, transformando a situação em caso de segurança nacional e os fantasmas em armas, para o Brasil derrotar os norte-americanos e se tornar uma potência mundial. Baseada numa lenda do café, Homens do Caixão critica de forma cômica a ditadura militar que, querendo um Brasil poderoso, mas com os cofres públicos vazios, foi obrigada a investir capital estrangeiro dos Estados Unidos da América e dos fundos financeiros mundiais. Também critica a corrupção política através de um dos protagonistas da história, o Coronel Prefeito Teodorico.

ENTREVISTA

Olá Francisco. É um prazer contar a sua participação na Revista do Livro da Scortecci.

Do que trata o seu Livro?
Homens do Caixão trata de uma resposta ao período dos anos de chumbo em forma de sátira, envolvendo uma lenda do café.

Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
A ideia surgiu de uma revolta, na minha adolescência, eu era favorável à ditadura, foi quando entrei em contato com artistas, jornalistas e advogados que viveram nesse período, e me contaram os horrores dessa época. Decepcionado e revoltado com a ditadura pensei em uma resposta que, certamente as vítimas do regime gostariam de dar. A eles minha obra é destinada e a todos que querem dar boas risadas.

Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?
Sou portador de esquizofrenia, tenho certo grau de dislexia e, autodidata, sofri muito na escola para poder aprender, por ser teimoso, aprendi. Homens do Caixão é meu primeiro livro publicado, e renascer é o segundo, e pretendo escrever ainda outros, aliás, tenho vários escritos, mas por falta de recursos, talvez demore um certo tempo para publicá-los. 

O que você acha da vida de escritor em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?
Os problemas de ser escritor de livros no Brasil é que a maioria das pessoas, acha que ganhamos milhões de reais nos comparando aos roteiristas de telenovelas, muito pelo contrário, a gente sua para vender nossos livros..

Como você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?
Um conhecido meu, que na década de 90 foi gerente da Editora Abril, onde se aposentou, e que indica para seus clientes que querem publicar seus trabalhos, a Scortecci.

O seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus leitores?
Meu livro merece ser lido por contar uma boa história, uma crítica à ignorância de um período conturbado da história do Brasil, por ser uma forma de entretenimento e a mensagem que deixo, é que ler é muito bom, você viaja numa dimensão a ser descoberta, tenta entender o que levou o escritor a pensar dessa forma; sempre tem uma mensagem ou várias delas a serem passadas, transmitidas e até mesmo imortaliza-las.. 

Obrigado pela sua participação.


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domingo, 5 de dezembro de 2021

Entrevista com Eduardo Borges - Autor de: Enquanto os Deuses Persistem

Eduardo Borges
Nasceu e vive na Bahia, mas se sente um estrangeiro em qualquer lugar. Expressar-se poeticamente é para ele uma necessidade desde sempre: as metáforas, as não-linearidades e as traições contra a linguagem são parte do seu dia-dia, ao passo que adequar-se ao corriqueiro significa para ele um esforço capaz de lhe provocar dores físicas. Enfim, é mais um filho-problema da vida.
Participou das coletâneas “Inéditos & Dispersos” (2004) e “Navegando entre Ilhas” (EDUFRB, 2021).
Instagram: @eduardoborgesescritosdoborges

Enquanto os Deuses Persistem
Os poemas que compõem Enquanto os Deuses Persistem são palavras de um condenado. Palavras de um condenado a revoltar-se contra o seu caos interno através do verso. Palavras de um condenado à tarefa inglória de colocar a desordem do mundo em estrofes. Palavras de um condenado a recriar-se pelo verbo. Palavras de um condenado à inadequação. Palavras de um condenado a saber que os deuses persistem, julgam, condenam, mas não são capazes de aniquilar a mais bela das transgressões, que é a poesia.



ENTREVISTA

Olá Eduardo. É um prazer contar com a sua participação na Revista do Livro da Scortecci

Do que trata o seu Livro? 
Os poemas que integram o livro tratam de memórias mal resolvidas da infância, da minha relação mal resolvida com o cotidiano, com as religiões, com os deuses, com as mulheres (as mulheres, confesso, têm peculiaridades existenciais que estão muito acima da minha capacidade de compreensão), com a masculinidade venenosa, com a minha família, com a escola primária, com o fascismo de esquina, com Santo Amaro da Purificação, dentre outras coisas. Ou seja, o livro é, de certa forma, um tratado sobre afetos mal resolvidos escrito por um sujeito mal resolvido que acorda sempre de mau humor e que odeia os dias de domingo. Contudo, devo frisar que, apesar dos pesares, não são poemas escritos com o fígado, e sim com o coração. Modéstia à parte, consegui fazer poemas belíssimos a respeito de sentimentos que me esmagam, que doem com frequência. Sim, sou um poeta de verdade. 
Enfim, o livro trata de muitas coisas que poderiam, a título de facilitação para o leitor adepto de simplificações, ser englobadas num conjunto que eu denominaria de Consciência Dolorosa do Absurdo.

Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
Eu sempre escrevi poemas, porque não sei expressar as minhas dores de outro modo que não aquele que só me é permitido pela linguagem poética. Se há um sentimento, uma memória ou um acontecimento que me provocam dores existenciais, não sei expressar tal situação escrevendo textão no Facebook, tampouco com falação no divã de psicanalista. A linguagem do cotidiano é muito raquítica para mim. Para expressar o que me dói, preciso das não-linearidades que só a poesia proporciona. Não sei exatamente por que, mas eu sou assim, gosto da loucura da metáfora, amo trair a linguagem.
Porém, não tive, durante muito tempo, nenhuma vontade de publicar um livro. Como disse antes, escrever poemas para mim é como uma necessidade, mas eu não sentia a necessidade de reunir os poemas em um livro. Simplesmente eu ia escrevendo os poemas, e os mostrava a uma, duas pessoas no máximo. Entretanto, nos princípios da pandemia, começou a germinar em mim a ideia de publicar um livro de poemas, mostrar a minha arte e a minha suprema vingança contra este mundo hostil para um número maior de pessoas. E a ideia foi ganhando cada vez mais espaço dentro da minha cabeça. Então reuni uns 60 poemas, fiz o livro e aí está ele.
Quanto ao público ao qual se destina a obra, não sei dizer ao certo. O que posso afirmar é que aqueles que assistem ao Bráulio Bessa fazendo auto-ajuda rimada no programa da Fátima Bernardes acreditando que aquilo é poesia certamente não vão gostar do meu livro.

Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?
Não sei se voltarei a publicar um livro. Há dias em que penso que sim, e há outros em que rejeito a possibilidade. Estou sempre escrevendo, sobretudo poemas. Mas há algumas coisas que tenho escrito em prosa e enxergo nelas, às vezes, a possibilidade de criação de uma novela ou romance. Simplesmente não sei dizer se Enquanto os deuses persistem é o primeiro livro de muitos. Quanto à árvore, nunca plantei uma nem tenho vontade.

O que você acha da vida de escritor em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?
Eu acho que é uma loucura escrever livros no Brasil. Em se tratando de um livro de poemas, a loucura já é caso de discussão psiquiátrica, talvez. Digo isso pelo fato de um livro de poemas não ser um produto artístico que goza de muito prestígio, mesmo entre pessoas que se dizem leitoras. Quando eu publiquei este livro algumas pessoas chegaram a me dizer “ah, se você tivesse escrito um romance eu leria, mas poesia é complicado pra mim.” Dá um pouco de frustração saber que nem tanta gente assim vai ler o seu livro, por que há o desejo de que as pessoas leiam, comentem...
O fato das pessoas lerem pouco em nosso país é algo que me deixa meio angustiado, por que tal situação só pode gerar uma miríade de gente sem criatividade, sem poder de abstração, sem capacidade de enfrentar questões complexas, e isso, penso eu, é ruim para a coletividade no final das contas, pois tem consequências deletérias em vários campos, inclusive na política. Mas que fique claro que quando eu falo que a leitura é importante, não estou falando de ler qualquer coisa. Afinal, ler Cinquenta tons de cinza ou o livro do Gil do Vigor não vai ajudar muito na empreitada da gente fazer esse país avançar culturalmente.

Como você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?
Eu estava pesquisando editoras que trabalhassem com pequenas tiragens e um grande amigo e poeta, Leandro dos Reis Muniz, que publicou um livro chamado Avulso, pela Scortecci, me falou muito bem da Editora, do cuidado que ela tem com os livros que publica, do bom tratamento fornecido pela equipe. Daí veio o meu conhecimento e a minha escolha.

O seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus leitores?
Não tenho dúvidas de que o meu livro merece ser lido. Nele há poemas muito bonitos, maravilhosos. Enquanto os deuses persistem tem uma densidade poética que não se encontra sempre, pra ser sincero. Falo isso com a paz de quem não é um narcisista fora dos padrões aceitáveis pela civilização (pelo menos é isso que o meu analista diz).
Para os meus leitores, deixo um abraço cheio de bons afetos e peço que leiam o livro, comentem, amem, odeiem, mas não me deem, pelo amor de Deus, o castigo da Indiferença.

Obrigado pela sua participação.

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