Maria Tereza Callefe, 76 anos, açoriana de origem e alma. Professora de Português, Licenciada em Letras Vernáculas pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo – Turma de 1967. Seguidora da doutrina espírita que, no dizer de Léon Denis, “é abençoada doutrina que enluara de esperança a noite de nossas vidas.” Atualmente aposentada, artesã nas muitíssimas horas vagas, mora no seu paraíso encontrado: Caraguatatuba.
Trata tão bem as palavras quanto, durante a vida toda, esta portuguesa, professora de Português tratou seus alunos. A delicadeza e proficiência com que narra suas memórias nos conduzem a uma viagem que vai da alegria intensa a lágrimas aos borbotões e só quem leu, na adolescência, “O meu Pé de Laranja Lima” é capaz de imaginar. A leitura de “Tecendo Memórias” e o consequente passeio pela vida de Tereza, despertaram em mim a lembrança dos versos de Abílio de Guerra Junqueiro em um trecho de “Recordam-se vocês do bom tempo d’outrora.”
(...) Meus amigos, a vida é um sol que chega ao cúmulo
Quando cantam em nós essas canções celestes;
A sua aurora é o berço, e o seu ocaso é o túmulo.
Ergue-se entre os rosais e expira entre os ciprestes.
“Saudade de um tempo que não volta mais”? Não! “Tecendo Memórias” é a canção celeste do amor de uma mulher por um homem, o exterminador de brumas. E também é uma comprovação do acerto do pensa-mento de Henry Adams, “O professor se liga à eternidade. Ele nunca sabe quando cessa a sua influência.” Dr. Mourão, Tereza e Giovana que o digam. Nada mau para uma quietinha.
Leo Reis Leite Junior
Aborda, em primeiro lugar, as recordações de infância e juventude de Maria Tereza Callefe, em Portugal. Vive algumas situações hilárias, outras, no entanto, carregadas com uma certa dose de amargura. Em certa altura, sua vida fez um giro de trezentos e sessenta graus e ei-la emigrando para o Brasil onde viria encontrar um grande amor e onde conseguiria realizar um sonho: ser professora.
Forma-se em Letras pela Universidade de São Paulo e acaba balançando entre três amores: o marido, os três filhos adotivos e o magistério. Sérios problemas de saúde tornaram seus dias em momentos bem difíceis de transpor. No entanto, com o apoio da família , sobretudo do marido, acabou encontrando de novo um porto seguro. Ciente do efêmero da vida, resolveu com o marido fazer uma viagem- preito de gratidão- à sua terra natal: a sempre encantada Ilha das Flores, no arquipélago dos Açores.
“Este mar sem fim é que nos remete sempre para a sensação de fazermos parte da ilha, mormente quando estamos longe dela. Li em algum lugar que a melhor forma de permanecer para sempre na ilha é sair dela.”
“Numa manhã cravada de tanto azul, os emigrantes aportaram a um reino cheio de graça, cheio de luz, onde, naturalmente, muitos encontrariam o seu anjo exterminador de brumas.”
“Vamos fazer assim: Primeiro vamos despejar todas as ideias intrusas que se alojaram na nossa cabeça – aquelas da televisão, principalmente. Eliminados todos esses visitantes indesejados, vamos fazer uma faxina no quartinho onde se alojaram durante tanto tempo uma porção de ideias que nunca foram nossas. Abrimos todas as janelas do quartinho, deixamos ventilar bastante por vários e vários dias e depois vamos procurar a chave da imaginação que acabou enferrujada por falta de uso. Agora é só esperar. Num dia de muito sol ou de muita chuva vai pintar uma ideia genial. Agarre bem essa ideia; ela é sua. Instale-a respeitosamente no quartinho das ideias.”
“Carece de botar reparo” em todo o seu interno, em todo o seu externo e, muito mais, em todo o seu entorno. A esta somatória de ângulos chamamos VIDA, e é um pouco dela, a Vida, que eu quero registrar nestas memórias.”
Olá Maria Tereza.
É um prazer contar com a sua participação no Blog Divulgando Livros e Autores
da Scortecci do Portal do Escritor.
Do
que trata o seu Livro? Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que
se destina sua obra?
Meu livro Tecendo Memórias trata, como o nome sugere, de
momentos vividos nestes meus setenta e sete anos.
Roída de saudades de minha terra natal - a encantada Ilha
das Flores, a mais ocidental ilha do arquipélago dos Açores-resolvi, me livrar
desta dor através da magia da palavra. Como conversa vai conversa vem, uma
coisa puxa a outra, acabei relatando os momentos mais marcantes de minha
existência neste ainda planeta azul. Nascimento, vida escolar, emigração para o
Brasil aos vinte anos.
Referência ao tempo de magistério, família, sérios
problemas de saúde, adoção de três crianças, enfim, essas coisas comuns a todos
os mortais.
Fale de você e de seus projetos no
mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de
plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?
– Como sou de poucas falas, sempre resolvi exercer aquela
tão necessária catarse através do ato da palavra. Durante meu tempo de
professora de Português, brincava com os alunos de ser escritor. Colocava uma
música clássica como fundo musical, e acabava me envolvendo naquela doce
ciranda. Ia para o fundo da classe e, juntos, os alunos e eu, acabávamos nos
envolvendo e os textos que eu ia produzindo foram guardados por muito tempo.
Quando resolvi editar o livro de memórias, vali-me muitas vezes de alguns
textos guardados sem muita expectativa de uso. Valeu a pena. Quando participei
de uma obra coletiva, As Novas Sessentonas, acabei utilizando textos produzidos
em sala de aula.
Gostei da brincadeira. Espero que a “indesejada das gentes”
perca o meu endereço. Quero mais!
O que você acha da vida de escritor
em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?
Primeiro- a criança deve ser seduzida até aos doze treze
anos pela leitura, Só assim vai se tronar, mais tarde, num fiel leitor.
Segundo-este hábito não é só incumbência da escola: o ideal
seria que a família se incumbisse desta tarefa.
Terceiro – Parece que as emissoras de televisão pretendem
boicotar as editoras. Leitor crítico, espectador crítico.
Quarto – sugestão para as editoras: baratear o custo das
edições.
Acredito que, só depois de observados estes aspectos, o
escritor poderia se dedicar integralmente à sua profissão.
Como
você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?
Cheguei ao conhecimento da Editora Scortecci, a quando da
participação na obra As Novas Sessentonas.
O
seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus
leitores?
Tenho uma ambição: que o livro seja apreciado por açorianos
dispersos numa terrível diáspora por este mundo de meu Deus; que as mãe de
barriga, pensem seriamente na possibilidade de se transformarem em mães de
coração; que ,em família, a conversa sobre doação de órgãos, seja uma atitude
tranquila, séria e comprometida; e, finalmente, que mães e pais, ao anoitecer
da existência , tenham a grandeza de registrar suas memórias, como legado para
netos e bisnetos.
Obrigado
pela sua participação.
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